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Arquivo do autor:ameliaog

Hoje não foi um dia fácil.

O céu azul da manhã de inverno, estava quente demais para a estação do ano, demais.

Ele era médico, desses bons mesmos, chefe de toda uma seção do HC. Escolheu uma companheira médica, só assim para se entenderem.

Ontem disse que estava com medo da noite.

No gramado viçoso brilhavam placas de bronze. Flores murchas e mortas se intercalavam entre as campas:”Foi melhor assim, ele tava sofrendo né?!”

O padre falou por 25 minutos. 25. Fez sua “carta de recomendação”

As pás de terra experientes tapavam com rapidez o professor doutor.

Um bebê chorou do lado, a mãe tentou calá-lo. Era calor, todos de preto, só podia ser o calor.

Todos deram as mãos e rezaram pai nosso.

Aparentemente tudo termina aonde começa.

 

 

 

 

 

 

 

 

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Aos 16 já tinha passado por muito, mas agora era hora de ir.

O horizonte brilhante que a casa proporcionava a salvava todos os dias.

Os navios passando no fundo, combinando com o mar, faziam barulho de pôr do sol todos os dias, quando havia troca no porto.

Deitava-se na pedra da casa, e seguia com os olhos o astro ir para o lado poente.

O sino tocou na casa, e ela correu ansiosa pela ceia.

No jantar, a notícia. É hora de ir:

“Pra sempre?”

“Sim, agora é de vez menina!”

No outro dia o sol não apareceu, nem os navios.

Desceu as escadas feitas no barro, segurando a única lembrança daquele tempo na mão direita. A mão esquerda encostada no muro que cercava a casa descia no mesmo ritmo dos pés.

A lágrima foi inevitável. Mas foi uma só. Mas foi densa, e rolou difícil.

Entrou no carro e decidiu não olhar para trás, nem para o horizonte, só quis viver o agora.

Um riquixá é puxado na Índia por um rosto bronzeado e sorridente que sobrevive numa casa de madeira irresistente a chuva.

Um metrô é conduzido por um rosto amarelo e fechado no Japão, e que quando termina o trabalho, chega tarde em seu apartamento se tornando um desconhecido para a filha.

O riquixeiro tem 3 filhos grandes que trabalham na lavoura. O condutor tem uma filha que brinca no tablet, no celular, no videogame, e sempre quer mais.

O riquixeiro janta com a família todos os dias. O condutor come usando fones no trabalho.

O riquixeiro faz questão de comemorar o aniversário dos filhos. O condutor deixa pra depois, porque vai vê-la outro dia.

O riquixeiro não pode dar presentes. O condutor só pode dar presentes.

O riquixeiro vive em um país que não tem saneamento básico. O condutor vive em um país em que uma das maiores taxas de mortalidade é por exaustão ao trabalho.

O riquixeiro ganha 10 dólares por semana. O condutor ganha 200.

Se te dessem uma escolha, quem você ia querer ser?

O cabelo molhado no vento frio, o travesseiro amarrotado antes do sono, o tenis com cadarço preso, o carro com pedaços de ferrugem, o vento frio cortando a pele enquanto corria, a bolsa que rasga e deixa cair o conteúdo, a tv que liga e não tem nada passando, o véu de noiva comido por traças no armário, as flores murchando no vaso, o sol indo e voltando, a lua indo e voltando. A vida indo e voltando.

Já se foram mais de 120 dias. Muitas coisas se apagaram mas ela continuava lembrando de seu rosto. O quarto diminuia a cada vez que se lembrava que dentro deles já houveram dois. Dois que partilharam músicas, filmes, interesses e crescimento. Dois que brigaram, criaram vínculos, cuspiram indignações e armaram barreiras. Esses dois agora existem no passado, e só lá. O um de cada um agora foi pra frente, sozinho, como a torre no xadrez, sólida, protetora, mas sozinha. Sozinha. Ela já não lembra mais do tom da voz do outro, o outro, com certeza estranharia seu cheiro. Os dois, estranhos. Os amigos se dividiram, pretos e brancos, peões. O passado, definitivamente, virou passado, e as datas antes comemoradas, viram agora outras comemorações, com outros outros. Sim. A vida agora é outra. Viva, até que sua torre, vire um forte, e você seja sempre capaz de proteger sua rainha.

No início da vida tinha um restaurante. Uma dessas cantininhas italianas numa esquininha do bexiga. As toalhas quadriculadas vermelhas e verdes se alternavam nas mesas, lembrando a velha itália. As grandes garrafas de vinhos empoeiradas ficam presas na parede de cabeça pra baixo. Algumas era até de 1900.

Um dia, um gordo entrou no restaurante e sentou na terceira mesa da quarta fileira. O dono foi atender como sempre fazia. A toalhinha quadriculada o traiu: embaixo da mesa, do lado da barriga, o homem empunhava uma 38.

Assalto. Pff. Era a terceira vez naquele ano.

E no ano seguinte foram mais dois. Até a garrafa de vinho levaram.

No outro ano Marcelo resolveu ficar em casa.

No outro resolveu ficar no quarto.

No outro resolveu não sair da cama e começou a achar que ia morrer sempre no dia seguinte.

O restaurante fechou. Perdeu o crescimento dos filhos, a vinda dos netos, a doença de uma das filhas, o casamento das filhas, a morte de uma delas, o casamento dos netos e a vinda dos bisnetos. 

Marcelo morreu no dia que assumiu que morreria, assim que saiu do restaurante, há 20 anos atrás.

Viu o relógio chegar nos 3 para meia noite.

As canecas espalhadas pela casa denunciavam a decadência: Cada chuva trazia uma sinfonia. Pelo menos era assim que ela gostava de pensar. Beethoven, mozart, tanto faz.

Pulava entre elas como se estivesse no páteo da sua escola: amarelinha. Era bom se sentir criança pelo menos durante a chuva.

A falta de luz fazia os faróis dos carros andarem feito pessoas dentro de casa. Ela acompanhava cada uma delas com os olhos. Com olhos bem calmos, e gostava dessas pessoas lá dentro, com ela.

A pentax apoiada no apoio estava ansiosa para ser usada. Tinha entrado em ação pela última vez com Carlos, durante uma viagem para o Espírito Santo. Coisa pouca mesmo, só foto de umas velhinhas, umas pombas, talvez um ou outro mendigo, mas essas fotos queimaram.

As roupas que já foram vivas, agora estavam rotas, amarrotadas, e com furinhos de traça. Não se importava, o que tava dentro tá bom já.

O gato acompanhara toda a trajetória

Da casa nova a decadente

dos trapos aos farrapos

da pentax aos negativos queimados.

Acontece que um dia maria Clara cozinhava pinhões para são joão.

Carlos chegou por trás e deu um abraço carinhoso, desses de partir mesmo, que amassa a costela e deixa sem ar. Mas maria Clara gostava. Talvez fosse até sadismo.

Virou para abraça-lo, e beijaram-se intensamente. Os corpos se misturaram até um entrar dentro do outro, foi devastador. Naquela hora pensou ter ouvido beethoven também.

Deitaram-se no chão e fizeram-se um só. Se arrastaram até a cama, se uniram de novo.

Maria Clara Acordou com os gritos de Carlos.

Os pinhões, a panela, o fogão que ganhara da mãe, as cadeiras, os armários, os mantimentos, as cortinas de gatinhos, os panos de prato de portugal, os iminhas de geladeira, os interruptores, o liquidificador, o microondas, se tornavam uma massa só, derretendo pelo azulejo barato da cozinha recém montada. As labaredas subiam pelos armários comprados na marabraz, e Carlos Alberto corria com as mãos na cabeça.

Maria Clara não teve reação. Mas o homem tentou salvar as coisas, tentou tanto salvar que chegou perto demais do botijão de gás.

O enterro foi triste demais.

Parece que Belém nunca tinha sido tão triste. nunca mesmo.

Maria Clara foi com o gato no colo. Jogou em cima do caixão do marido uma foto da pentax. a única que não queimou da viagem de espirito santo.

Era irônico que a casa antes com fogo, agora vivia cheia d’água.

Mas para Maria Clara não importava nada, só dentro, dela.