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Arquivo do autor:Rodrigo de Azevedo Mahs

Neymar anunciando celular.

Neymar em ação de dia das mães.

Neymar fazendo gols contra os problemas capilares.

Neymar vendendo amortecedores de carro.

Neymar vestido de vaquinha.

Neymar transformado em saco de biscoito.

Neymar passando manteiga no pão.

Neymar interpretando Pelé.

Neymar atuando como vítima de abuso infantil.

Neymar apresentando o Fantástico.

Neymar colhendo figos.

Neymar posando ao lado de um Panzer IV.

Neymar para presidente.

Neymar cobrindo a Primavera Árabe.

Neymar liderando a contracarga em uma batalha considerada perdida.

Neymar decifrando o genoma humano.

Neymar curtindo um scat em Curitiba.

Neymar clonando Neymar clonando Neymar.

Overdose de Neymar.

Neymarketing.

(créditos do termo Neymarketing ao blog Brainstorm 9)

Era Engel. Não o famoso filósofo social, cujo nome se assemelhava muito, mas a música que ela havia colocado para tocar naquele sonzinho no criado mudo. Com um movimento quase angelical, ela deitava sobre meu peito nu, enquanto eu, por minha vez, amassava sua roupa de cama com minhas costas largas e desajeitadas. O mundo perdeu a luz momentaneamente enquanto seus cabelos, longos e cacheados, cobriam meus olhos. Um beijo suave, contrastando com a voz áspera que gritava no stereo.

Eu nem devia estar aqui.

Mas é sempre assim que as coisas começam pra mim. Uns tragos, uns papos e BAM. Palavra quebrada. Em algum lugar estava a vítima da promessa, sozinha e angustiada, esperando por um cara que só chegaria no dia seguinte com um cheiro de perfume barato, um sorriso filho da puta na cara e um buquê de desculpas. Recicladas, naturalmente.

O babaca aqui.

Que não conseguia se concentrar em outra coisa além daqueles longos cabelo cacheados que me acariciavam o rosto. Ela raspava a língua contra a minha, e eu pensando naquela basta cabeleira de ébano, e em como ela contrastava com a pele de tons pálidos dela, e se aquilo era natural ou se ela havia se submetido à tortura de algum salão de beleza, agarrando-se bem forte a um ideal de beleza que nem sempre havia lhe pertencido.

Foi aquela tragada que me deixou aéreo.

Viajando entre lá e cá, não estava em nenhum lugar, exatamente. Estava com um sutiã jogado ao lado de sua cabeça, mas ainda hesitava, talvez com a atenção alterada por um pequeno grito de bom senso do fundo da minha mente. Ela notava minhas mãos cheias de dúvidas e tentava enchê-las de seios. Seu insucesso a fez parar e olhar para mim, olhos com dúvidas onde antes jorrava lascívia.

“E aí, pensou no que quer fazer, afinal?”

Parei. E então pensei, mas confesso que não pensei muito. Com um simples jogo de pernas, era ela agora que estava por baixo, e eu que a beijava.

Deus sabe que eu não quero ser um anjo.

Se tudo der certo, estaremos bebendo. Os três em um boteco já conhecido, na avenida Paulista, cercados por transeuntes, estudantes, mendigos e falsos ongueiros. O garçom, nosso velho conhecido, nos servirá nossa cerveja sem nem precisarmos pedir. Tudo parte do projeto.

Se tudo der certo, estaremos bebendo. Outra noite aleatória, mesmo bar, e o garçom do nosso lado apressado para ir embora, sem entender por que diabos estamos discutindo o mesmo assunto há três horas sem chegar a uma conclusão. E nem chegaremos. Não é assim que funciona.

Se tudo der certo, estaremos bebendo. Em Munique, ou outra que o valha, um dia depois de acompanharmos aquele famoso festival daquela famosa cidade francesa e tomarmos a decisão de comemorar nossas conquistas em uma cidade que preste.

Se tudo der certo, estaremos bebendo. Cerveja, naturalmente. Cor amadeirada, um amargor delicioso, com notas de histórias, gargalhadas, discussões. Nossa cerveja. O primeiro envase de outras safras ainda mais promissoras.

Se tudo der certo, estaremos bebendo. Um de nós irá anunciar seu casamento. Os outros, cumprindo o dever cívico impetrado na classe masculina, sequestrarão o futuro marido. Whisky, putas e um adeus a outra fase que se termina.

Se tudo der certo, estaremos bebendo. Comemorando. O primeiro cliente conquistado, a primeira campanha aprovada, o primeiro pagamento recebido, os primeiros estagiários contratados, os primeiros anos do sucesso.

Se tudo der certo, estaremos bebendo. O calor do verão e da churrasqueira nos dará mais sede, e a cerveja descerá melhor que água. Alguns filhos ali por perto, brincando na piscina, se chegarmos a este ponto. A carne sairá rápida, saborosa, e ai do filho da puta que resolver deixar a gordurinha de lado.

Se tudo der certo, estaremos bebendo. Velhos, arrebentados, os dentes postiços e os órgãos remendados. Mas bebendo, de preferência no mesmo lugar, seguindo aquele projeto que iniciamos há tanto e lembrando tanto quanto nossa senilidade permitir.

Se tudo der certo, estaremos bebendo. Mas apenas dois. O outro estará bem arrumado, maquiado e deitado em uma cama de madeira. Os restantes estarão ao seu redor, dando os últimos adeus.

Aí eu vou pegar um copo de cerveja, encher, derramar metade e colocar o copo em sua mão fria e sem vida.

E uma das pessoa irá me cutucar e perguntar: “Essa foi pro santo?”

E eu responderei, não sem a voz embargada: “Não. Foi pra Santíssima.”

– Garçom, este copo está sujo! -, exclamou um indignado freguês ao seu lado.

Foda-se”, pensou. Se estivesse bebendo álcool de verdade, isso não seria problema. Os  germes tinham mais sorte. Eles esperavam pacientemente no copo, esperando serem cobertos por um oceano de Bourbon, e afogavam-se felizes, indo com um sorriso para o que quer que os germes fossem depois de virarem cadáveres.

Os seres humanos, não. Esses buscam sentido na sua vida. Assim que adquirem certa idade, justificam sua vida com estudo e a falsa promessa de “ser alguém na vida”. Durante a vida adulta, colecionam noites no escritório ou em clubes, procurando esse sentido em sexo ou trabalho, sem realmente aproveitar um ou outro. Aí se casam, e acham que a vida tem sentido até chegar ao ponto dela em que fica claro que ela vai acabar. Então, passam o resto de suas vidas tentando deixar algum legado para o mundo além de sua carne, cuja utilidade não passará de alimento de vermes.

Isso, claro, se não houver nenhum acidente de percurso. Doenças, tragédias, assassinatos, acidentes, descuidos, coincidências mortais. Tudo o que servia para lembrar-lhes que sua efemeridade pode ser ainda mais contundente, frágeis que são. Mas que merda, não seria melhor simplesmente deitar e ser engolfado por uma maldita bebida? Os germes que sabiam das coisas.

– Eu pedi SEM picles. Dá pra trocar? Garçom!

Podia socá-lo. Podia lembrar a ELE de sua efemeridade, da fragilidade de seu corpo. Podia contar quantos socos eram necessários para lhe romper as veias do rosto e fazê-lo sangrar. Depois, quantos eram necessários para inchar seus olhos. Depois, quantos para deixá-lo irreconhecível até para a família. Enquanto outro gole lhe queimava a garganta, imaginava aquele copo voando, o líquido se esparramando pelo balcão e o som do osso quebrando. Aquele satisfatório “crack”. Se estivesse de cabeça fria, podia até mesmo forçá-lo a morder a língua com força antes de chutar sua mandíbula para cima.

Acendeu um cigarro e voltou a pensar nos germes. Será que eles brigavam entre si, também? Será que, em algum copo sujo de um boteco de merda qualquer, os germes disputavam entre si a melhor posição no vidro, para que fossem atingidos primeiro pela onda libertadora de bebida? Será que formavam grupos que se uniam sob ideais semelhantes e digladiavam com palavras, paus, pedras e punhos? Sentiu-se estúpido por tais conjecturas inúteis. O cigarro já ia pela metade quando ouviu a voz ao seu lado.

– … é proibido fumar aqui? Isso é um local fechado, que falta de respeito! Vou chamar o garçom pra resolver isso!

Ergueu seu copo uma última vez, fazendo um brinde silencioso aos germes que haviam dado suas vidas naquele mesmo recipiente em troca do sossego que ele tanto invejava naquele momento. E levantou-se, cigarro no canto da boca, punho crispado e um pensamento a correr-lhe os miolos. “Acho que com dois eu já tiro sangue dele. Com cinco, eu…

 

A primeira vez que Olavo cruzou com os dois homens, chovia muito. Não, pra caralho mesmo. Daquelas chuvas que são tão densas que mal se consegue ver dois palmos à frente da fuça, mas que costumam demorar tanto tempo que a ideia de enfrentá-la cresce a cada suspiro de impaciência. Parecia ser o caso dos dois baixinhos que, sem guarda chuva nem porra nenhuma, passeavam pela calçada encharcada como se estivessem num domingo ensolarado num parque qualquer. E lá, no meio daquele aguaceiro que dançava às monções, um deles vira pro Olavo (acho que era o mais alto) e fala: “você precisa sair daqui, hein?”

O Olavo ficou meio embasbacado com aquela lógica lusitana do ilustre desconhecido. Porra, lógico que ele precisava sair dali. Não tava no plano de vida dele morar embaixo de um toldo, espremido com mais uns trinta cristãos que também não tinham coragem de botar uma unha sequer debaixo daquele chuveiro natural. Ao invés de xingar, ficou só olhando os caras irem embora. Não era idiota de largar o abrigo dele assim, que nem os dois.

Na segunda vez ele tava meio bêbado. Tinha sido um tempo, já, desde a primeira vez, mas os caras estavam de cabelo molhado e o Olavo juntou os pés pra me dizer que era por causa da chuva. Enquanto a sua cerveja deixava seu mundo cada vez mais redondo, a deles refrescava até pensamento, e por isso eles pareciam bem relaxadões, maiores… E o Olavo tava num dia bom, sabe? A cerveja toda era comemoração, e dava pra ver pelo sorriso dele. Foi o que atraiu o menor.

“E esse sorrisão, aí?”, perguntou sem nem se apresentar. O Olavo nem aí. Não queria saber o nome dele, mesmo. Decidiu dar papo, já que tava só ele mesmo, e entre um gole e outro ia respondendo. “Tou feliz hoje”, essa foi a resposta dele, seguido de um glup. “E o motivo?”, perguntou o grandão. Glup. “Ganhei uma promoção no trabalho. Glup. É um bom motivo, né?”, o Olavo disse. O grandão que falou de novo, dizendo “É nada. Cada passo que você dá lá dentro deixa sua vida mais dependente da vida deles. E você tem sua própria vida, lembra?”.

Aí o Olavo ficou puto, né. Levantou, pagou a conta e vazou, com aquele gostinho de quem havia tomado uma cerveja com água que alguém jogou.

Teve outro dia que ele tava na rua, indo pra casa. A promoção tinha dado mais segurança pra ele, e ele tinha tomado uma decisão de tamanho inversamente proporcional ao do diamante que tava na aliança que ele tinha acabado de comprar em troca de um braço e um olho. Só que mesmo caolho, reconheceu os caras – dessa vez de terno, arrumados pra caramba. Ele já ficou puto, e resolveu fingir que nem. Mas adianta?

Dessa vez nem foram amigáveis. O menor, que tava enorme, já chegou na fúria, berrando “você tem que sair daqui, porra!”, pegando a caixinha do bolso dele e metendo uma bica tão forte que (e isso ele que disse) podia ter parado em qualquer canto da cidade. Foi a gota d’água, né? O Olavo é calmo, cê sabe, mas na hora foi pra cima dos dois, a mão fechada que nem uma rocha. Mas nem adiantou. Eles tavam fortes, e eram mais fortes que ele. A força era tão grande que a vontade deles ganhou: O Olavo caiu, e a cada soco que davam, eles mandavam o cara abrir os olhos, e o impacto dos murros era tão forte que ele ficava arregalado.

Cada vez mais.

Até que ele abriu os olhos.

Porra, tava todo mundo lá em volta da maca dele. Tava a namorada dele, com aquele borrão embaixo dos olhos, e o Olavo só pensava “porra, e eu perdi a aliança”.

Daí que contaram pra ele, e ele percebeu o que tava rolando.

O Olavo acordou.

Mas também, você faria diferente?

Sonhava com aquela menina tímida, de vestido laranja, a andar de mãos dadas por um parque da cidade, um oásis em meio à sujeira, poluição e corrupção. Acordava com aquelas outras, mais sujas, desbocadas, com aquele sono pesado de quem faz demais: bebe demais, fode demais e se droga demais.

 

Dorinha era uma dessas. Da do segundo tipo, bem entendido. Daquelas que eram chamadas de perdidas, mas que sabiam muito bem onde estavam e que até chegavam a cantarolar enquanto subia a estrada dos ladrilhos encardidos, em direção ao bar mais próximo. Um oásis em meio à opressão, normalidade e marasmo que o resto do mundo parecia perseguir incansavelmente.

 

 Ele, ainda que ordeiro e sonhador, conseguiu ver um lampejo de paz e sonho dentro da mente caótica dela;

Ela, ainda que inconformista, não parava de pensar: “esse coxinha eu como sussa.”

 

Nem bem paraíso, nem bem inferno. Nem muito ordem, nem tanto caos. Um pouco de Ying, mas também uma parcela de yang. E, assim, desequilibrados, encontraram neles mesmos um pouco de equilíbrio.

 

Um oásis em meio à descrença, individualidade e  medo da entrega.

“Sentido: este lugar não faz nenhum”. Foram as únicas palavras que consegui proferir antes de ser engolfado em seu mundo caótico, frenético e até mesmo bipolar.

Ainda que minha vontade mostrasse resistência, meu afinco pouco valia frente aos seus gestos mesmerizantes. Pouco a pouco, minha resiliência era minada – mero castelo de cartas que você derrubava com um simples sussurro, com sugestões patéticas que me arrebatavam como ideias geniais.

Logo, virou você meu centro de atenção. Fornecia-me humor quando necessitava rir; amor quando necessitava atenção; sexo quando o tesão falava mais alto e diversão quando me corriam pelas veias o monstro do tédio. Em troca? Pedias atenção. Queria saber onde eu estava, com quem estava, o que estava fazendo e onde eu iria depois.

Em pouco tempo, meu celular era seu. E meus amigos não mais me pertenciam – ou eu não pertencia a eles, já que cada vez mais eu me entregava a este relacionamento tórrido. Você me mantinha acordado por diversas horas após meu horário de dormir e, embora fosse raro o dia em que eu não fosse ao trabalho com os olhos inchados de sono, mais raro ainda era o dia que eu não fosse com um sorriso estampado no rosto.

Você me dominou por completo. Me tem todo para si. É impossível tentar me livrar de seus braços, mas, sinceramente? Eu nem quero isso. Já é mais do que tempo de assumir. Já é mais do que hora de todos saberem: EU TE AMO.

 E jamais conseguirei viver sem você. Internet.