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Alimasp

O quarto de Teerã era amplo e tinha uma seta no teto apontando uma das quinas. Algo em farsi que não soube dizer mas imaginei ser a direção de Meca. A cama era ampla e confortável, e como nos outros três quartos um Alcorão habitava um dos criados mudos. O quarto de Teerã era único porque o outro criado mudo tinha uns botões que pareciam de televisão dos anos oitenta pelos quais se apagava e acendia todas as luzes. Quando no total escuro, o voal transparecia a silhueta norte da cidade, onde estava a Torre Milad. Nesse mesmo horário, próximo à varanda era possível ter medo vendo o escuro das ruas cheias de Enqelhab, termo local para revolução, que nomeava os líderes acredito eu de setenta e nove. O quarto de Teerã tinha um wifi que precisava ser comprado de cinco em cinco horas mas funcionava bem. Tinha uma equipe de governança bastante atrevida. Não vendo o Não Perturbe na maçaneta, entrava as onze da manhã e quase me pegava pelado dormindo e falando “Please Do Not. Please Do Not.” cheio de sono. O quarto de Teerã foi o primeiro e o último. Acompanhou toda a curiosidade da chegada, além do cansaço e a vontade de voltar da partida. Estava num hotel onde a recepcionista me encarou com olhos de contemplação e meu passaporte na mão logo nas primeiras horas, dizendo: Are you really brazilian?… E foi justamente para ela que eu fiz a melhor e mais estúpida pergunta de toda a viagem: I need to know what day is today. Nunca imaginei que um dia diria isso para alguém… Todavia, como foi bom chegar no lugar mais longe que eu já fui e  descobrir que até os dias têm outra lógica.

No fundo do poço tinha uma flor
Era bonita e bem cheirosa
Precisava virar bastante a cabeça pra um mínimo de luz conseguir bater.
Com coragem era possível.

Perceba, leitor, o quanto era inesperada.
Quando caí no poço, só vi diabos e escuridão.
Não tinha nada que me identificasse.
E como já tinha caído, resolvi parar pra observar.
Assim, no escuro de coração vermelho aberto.
Esperando o nada que combinava com aquele breu.

Até que.
No fundo do poço tinha uma flor.
Era bonita e bem cheirosa.

Na segunda Ana Luiza começa mais clássica e curte o Da Vinci.
Diazinho chiaroscuro sem muito requinte.

Na terça, lembra do pesadelo Huygue.
Faz sentido para o dia da teimosia um jardim estranho com cachorro de pata rosa que mal rime a poesia.

Quarta-feira, meio da semana, já rola um Hélio, um Mondrian.
Na agenda meio lotada ainda vê quadrados vazios para o dia de amanhã.

Quinta é dia de tinta bela.
As idéias colidem como cores de Pollock na branca tela.

Sexta. Eta semaninha que não acaba mais.
Merecia uma esculturinha fofa do Fischli & Weiss.

Sábado ela vai pra aula ouvir o Pedro dizer que o Anish Kapoor é brega.
E domingo? Ah, meu bem… Domingo desapega.

Eu não sei.
O que vou fazer agora.
Eu só sei que você não me liga mais.
Eu queria ver seu rosto na tela do meu celular.

Pammy, você tá perdendo a poesia.

Já não sei.
Se vou pra cima ou pra baixo.
Mas eu sei que não vou pro lado.
Não sou caranguejo.
Nem moro em Santos. Moro em São Paulo.
Onde não tem amor.

Pammy, você tá perdendo a poesia.

Por favor.
Abre a porta do meu quarto.
Diz que vem.
Porque o poema já tá acabando.
E eu não vou ficar aqui lendo sozinho o que é pra você.
Cadê?

Pammy, você tá perdendo a poesia.

Três poemas. Uma semana.
Minha veia está saltada.
Melhor nem ir pra acupuntura.
Pr’esse mal que pode ela fazer? Nada.

Enquanto escorro pela parede.
Minha melhor amiga só me condena.
Se católico fosse começaria uma novena.
Mas não sou. Fico na rede.

Tenho uma idéia gênia!
Dois cliques. Saco a parada.
Melhor ir devagar pra não queimar largada.

Ainda sou pessoa.
E não vivo de quietude.
Mando então pelo whatsapp sua fatura de atitude.