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Mari

É noite de verão. São 3h30 no relógio que ela me deu. Cristina… Cris. Tantas noites de verão nós tivemos. Quentes, mornas e frias, mas igualmente gostosas. Você foi para mim tudo o que eu não consegui ser para você. Enquanto você me completava, eu te subtraía. Desigualdade injusta para um relacionamento.

Fecho os olhos, iTunes no shuffle. Toca a minha música com a Lílian. Lica. Doida, ciumenta, possessiva. Mas… como me fez me sentir amado. Não pelo excesso de atenção, mas por relevar meus defeitos e perdoar meus deslizes.

Quem ama faz isso, certo?

Não tínhamos nada em comum, mas achava graça quando ela dizia que éramos o reflexo um do outro. Aaaah Lica… Te amei profundamente por poucos dias, mas foram sinceros, juro!

4h15 da manhã e nada do sono aparecer. Vou até a estante procurar um livro para me ajudar a adormecer.“O Guia do Mochileiro das Galáxias”. Que saudade!

Essa coleção me acompanhou por muito tempo. Li e reli muitas vezes todos os livros. A nostalgia me leva a folhear o volume um tão involuntário quanto encher os pulmões e respirar.

E eis que encontro um bilhete da Paulinha, minha terceira namorada na faculdade. A menina mais meiga e carinhosa do mundo. Compreensiva que só. A esposa que todos os homens pedem a Deus. Bom… homens como eu não precisam pedir mulheres mas… enfim. Um anjo. Não lembro porque terminei com ela, mas agora, exatamente agora, sei porque ela não deveria estar comigo.

Tive muitas mulheres na vida. Todas, TODAS, preciosíssimas. Defeitos, todos temos. Ah, mas as qualidades, meu amigo, as qualidades dessas mulheres não se encontram em qualquer uma. Eram verdadeiros tesouros.

Me sinto um gemólogo de corações. Tenho as pedras preciosas comigo. As procuro, as encontro, as estudo. Mas não são minhas por muito tempo, pois não me pertencem.

O relógio marca 5h30 da manhã. Um calor dos infernos. Calor de uma madrugada de verão. O shuffle maldito toca “All by myself”, me lembrando que este ano o inverno do meu coração chegou mais cedo.

Cansei dessa vida. Cansei de fazer as coisas pelos outros e não ser reconhecido. De me esforçar e não receber sequer um “obrigado, Carlos”. Ás vezes, penso que verbalizar a gratidão dói mais que simplesmente ser grato.

Cansei do egoísmo dos outros. E do meu próprio, exigindo atenção alheia. Cansei de chamar, pedir, brigar para saírem comigo. Para que eu tenha suas companhias.

Cansei da pressão não fundamentada do mundo. Por que com 30 anos eu TENHO que ter um cargo alto, estar prestes a casar, com a vida ajustada, com o carro do ano, apartamento comprado e MBA? CANSEI.

Cansei e acabei com a minha miséria. Cansei e por isso tive que matar este jovem rapaz. Jovem, que já estava morto. Ou parcialmente vivo.

O que vale mais: um corpo que respira, preso, ou uma alma cheia de vida, livre?

Foda-se a sua opinão. Ao morrer, parei de me preocupar com isso.

Sinto apenas por este jovem. Bonito, extrovertido, bem sucedido, bom de papo. Eu. Meu novo eu.

Me sinto… renovado. Meu suicídio, seu assassinato. Minha ressurreição, seu fim.

Ele leva com ele a alma morta, enquanto a viva segue caminho com um novo corpo.

Perdão às duas famílias. Vocês perdem dois, um cada.

Eu me ganho, eu me encontro, eu me vivo. Eu.

Perdão ex-mamãe, viverei uma nova vida agora…

Felipe,

Existem os copos meio cheios, e os copos meio vazios.

Não é uma questão de perspectiva, otimismo ou pessimismo. É uma questão métrica. E portanto, lógica.

A capacidade de um copo, seja ele americano, inglês, belga, japones, é de 100%.

Maior que 50%, pode-se dizer que está meio cheio. Menor que 50%, pode-se dizer que está meio vazio.

“E quando estiver em 50%?”, um idiota pode perguntar.

Está simplesmente pela metade, porra!