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Mel gama

O cabelo molhado no vento frio, o travesseiro amarrotado antes do sono, o tenis com cadarço preso, o carro com pedaços de ferrugem, o vento frio cortando a pele enquanto corria, a bolsa que rasga e deixa cair o conteúdo, a tv que liga e não tem nada passando, o véu de noiva comido por traças no armário, as flores murchando no vaso, o sol indo e voltando, a lua indo e voltando. A vida indo e voltando.

Já se foram mais de 120 dias. Muitas coisas se apagaram mas ela continuava lembrando de seu rosto. O quarto diminuia a cada vez que se lembrava que dentro deles já houveram dois. Dois que partilharam músicas, filmes, interesses e crescimento. Dois que brigaram, criaram vínculos, cuspiram indignações e armaram barreiras. Esses dois agora existem no passado, e só lá. O um de cada um agora foi pra frente, sozinho, como a torre no xadrez, sólida, protetora, mas sozinha. Sozinha. Ela já não lembra mais do tom da voz do outro, o outro, com certeza estranharia seu cheiro. Os dois, estranhos. Os amigos se dividiram, pretos e brancos, peões. O passado, definitivamente, virou passado, e as datas antes comemoradas, viram agora outras comemorações, com outros outros. Sim. A vida agora é outra. Viva, até que sua torre, vire um forte, e você seja sempre capaz de proteger sua rainha.

Desceram as escadas escorregadias de mãos soltas. Os pés no chinelo tocaram os paralelepípedos de Sta Tereza molhados por uma chuva inesperada. Ela seguia a trilha do bondinho desativado com os olhos, ele olhava os matos que cresciam entre o calçamento. Ela subiu no trilho, e tentava equilibrar-se no chinelo torto, bambeou, buscou a mão dele, mas não alcançou. Ele também não a vira caindo. Subiram o morro calados. As edificações encarapitadas olhavam para eles. Janelas neogóticas, pinturas descascadas, tudo passando rápido e devagar, como a chuva. Passaram em um bar que tocava um jazz tristonho, ela quis entrar. Pediram suas comidas, silenciosos. Ela pediu batatas e linguiças, ele hambúrguer. Comeram devagar, mastigando a cada bater suave da bateria ritmada. As mordidas ficaram mais difíceis, os olhares baixos dificultavam até a respiração dos presentes. O garçom cochichava com o cozinheiro. Ela terminou e fechou os olhos. Ele protelava o término encostando na parede. As mãos geladas dela se roçavam tentando acabar com os arrepios. Ele permanecia impassível. Ela olhou para os trilhos do bonde, e na próxima batida da bateria, se levantou, calçou as chinelas e seguia a linha férrea até o fim.