Um riquixá é puxado na Índia por um rosto bronzeado e sorridente que sobrevive numa casa de madeira irresistente a chuva.

Um metrô é conduzido por um rosto amarelo e fechado no Japão, e que quando termina o trabalho, chega tarde em seu apartamento se tornando um desconhecido para a filha.

O riquixeiro tem 3 filhos grandes que trabalham na lavoura. O condutor tem uma filha que brinca no tablet, no celular, no videogame, e sempre quer mais.

O riquixeiro janta com a família todos os dias. O condutor come usando fones no trabalho.

O riquixeiro faz questão de comemorar o aniversário dos filhos. O condutor deixa pra depois, porque vai vê-la outro dia.

O riquixeiro não pode dar presentes. O condutor só pode dar presentes.

O riquixeiro vive em um país que não tem saneamento básico. O condutor vive em um país em que uma das maiores taxas de mortalidade é por exaustão ao trabalho.

O riquixeiro ganha 10 dólares por semana. O condutor ganha 200.

Se te dessem uma escolha, quem você ia querer ser?

O que é sorte?

É ganhar uma rifa, ou um bingo?
É ser sorteado em algo que nem sabia que estava concorrendo?
É tirar a carta que faltava para aquela mão perfeita na mesa de poker?
É blefar e ganhar sem nem precisar jogar?
É encontrar 50 reais no bolso do casaco quando o inverno volta?
É acordar na hora certa e descobrir que tinha esquecido de ligar o despertador?
É ouvir a música certa na hora certa, como ser fosse trilha de filme?
É desistir de uma compra e encontrar uma promoção melhor ainda?
É subir na balança e ver o ponteiro alguns numerais para baixo?

Só posso dizer que você nunca saberá o que é sorte até que a vida deixe você dar um match na sua felicidade.
Só não deixe a chance passar – e cuidado para não dar o swipe pro lado errado e perder tudo.

O cara entra no ônibus e começa a falar sobre o Apocalipse, os ratos gigantes na China e corpos nas praias da Indonésia.
Tudo isso, aparentemente, estava na bíblia.

Não pediu dinheiro, não pediu amém, não terminou o raciocínio.

Deu sinal e desceu 3 pontos pra frente, no meio da frase.

Calor e frio são relativos.

Quantos corpos quentes abrigam almas gélidas?
Quantos pés frios se esquentam com o amor?

Só não dá pra deixar no morno.
Nada que é morno pode ser bom.

Ruim e bom também são relativos.
Morno não.

As cores se fundiam e dançavam. Era lindo e um pouco assustador.
Não haviam barreiras, nem linhas, nem nada que as contivessem. Eram livres, como todos deveriam ser.

Elas não tinham significado – porque deveriam ter?
Cada um que interpretasse da forma que quisesse. É uma viagem pessoal.
Era bonito, e era seu. Isso que importava.
Estético. Hedônico. Narcísico.

Marcado na pele, como os ideais de uma vida inteira.
Marcado para sempre, como seu caráter.
Marcado bem fundo, como seus valores.

Afinal, era mais um deles.
Randômico e verdadeiro, como sempre fora.

O quarto de Teerã era amplo e tinha uma seta no teto apontando uma das quinas. Algo em farsi que não soube dizer mas imaginei ser a direção de Meca. A cama era ampla e confortável, e como nos outros três quartos um Alcorão habitava um dos criados mudos. O quarto de Teerã era único porque o outro criado mudo tinha uns botões que pareciam de televisão dos anos oitenta pelos quais se apagava e acendia todas as luzes. Quando no total escuro, o voal transparecia a silhueta norte da cidade, onde estava a Torre Milad. Nesse mesmo horário, próximo à varanda era possível ter medo vendo o escuro das ruas cheias de Enqelhab, termo local para revolução, que nomeava os líderes acredito eu de setenta e nove. O quarto de Teerã tinha um wifi que precisava ser comprado de cinco em cinco horas mas funcionava bem. Tinha uma equipe de governança bastante atrevida. Não vendo o Não Perturbe na maçaneta, entrava as onze da manhã e quase me pegava pelado dormindo e falando “Please Do Not. Please Do Not.” cheio de sono. O quarto de Teerã foi o primeiro e o último. Acompanhou toda a curiosidade da chegada, além do cansaço e a vontade de voltar da partida. Estava num hotel onde a recepcionista me encarou com olhos de contemplação e meu passaporte na mão logo nas primeiras horas, dizendo: Are you really brazilian?… E foi justamente para ela que eu fiz a melhor e mais estúpida pergunta de toda a viagem: I need to know what day is today. Nunca imaginei que um dia diria isso para alguém… Todavia, como foi bom chegar no lugar mais longe que eu já fui e  descobrir que até os dias têm outra lógica.